domingo, 14 de fevereiro de 2010

A longa espera (de Alma Welt)

Estarei sentada aqui nesta varanda
Ou junto à nossa cerca de jasmim,
Esperando por quem tão longe anda,
Eu, esta que nem mesma sei de mim.

Bá! A quanto tempo espero assim!
A quanto... ouço roncos à distância
Do teu veloz e novo Aston Martin,
Que disseste supriria a tua ânsia

De mais vertigem, ventos que haveriam
Nas estradas do mundo e que viriam
Todas convergir aos nossos muros.

Vem! Tu prometeste, não me deixes,
Ou logo estarei muda como os peixes,
Vê, já não posso fazer versos mais puros...

(sem data)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Outros tempos (de Alma Welt)

Bá! Como corríamos no prado!
Havia flores de todos os matizes,
Risos e canções por todo lado,
Os tempos eram outros e felizes...

Olhar estrelas e cantar à lua cheia,
Algo que no ouvido ainda soa,
Quando se apagava uma candeia
Para na varanda estar à toa

E ouvir os rumores circundantes
Como os cantos vagos e dispersos
Dos sapos e o latir de cães distantes.

Também, meu pai Maestro, todo ouvidos,
Instando-me a declamar uns versos
Que nos pusesse a todos comovidos...

08/11/2006

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A Leste do Éden (de Alma Welt)

Na vida, minhas etapas alteradas
A ordem tive, raiz dos dissabores
Profundos da alma, em trapalhadas,
A confundir ainda amor e amores.

Dei-me cedo, e guria fui mulher
Punida pelo amor tal qual foi Eva.
Desfolhada não joguei o mal-me-quer,
Que ser amada é só o que me leva.

E quanto paguei por minha virtude,
Como se crime fora ou só defeito
O que de melhor dei enquanto pude!

Depois, do Éden no Levante foi preciso
Chorar de dor o belo corpo rarefeito
De quem nos expulsou do paraíso...

03/04/2005

Nota
*Chorar de dor o belo corpo rarefeito *- Alma se refere à sua dor de ver sua mãe, que havia sido muito bela, definhar pelo câncer que afinal a matou. Ana Morgado, a "Açoriana" foi quem flagrou Alma e Rudolf ( Rôdo), crianças, brincando eroticamente sob a árvore favorita deles no pomar, e os puniu severamente, inclusive colocando Rodo num Internato, separando os irmãos por muitos anos... (Lucia Welt)

O Tempo suspenso (de Alma Welt)

Não me fales, amor, de um novo ano,
Não o vejo, vês, estou sonhando?
A coxilha corrobora o meu engano,
O próprio Tempo aqui sonha pairando,

Imóvel, suspenso, entorpecido,
A confundir os tempos e as idades,
Por isso este meu Pampa é dolorido
E pleno de guerras e saudades.

Anita veio esta manhã à revelia
Do sapateiro embriagado contumaz
E amor confidenciou-me, de guria,

Por aquele italiano belo e audaz
Que hasteou farrapos, como o Bento,
E no cais espera só soprar o vento...


09/07/2004

domingo, 3 de janeiro de 2010

Amores perdidos (de Alma Welt)

Amores perdidos não houveram,
Que amor não se deixa para trás...
Aquilo que fruímos, que nos deram,
De nós mesmos para sempre parte faz.

Por isso não há queixas ou lamentos
Que tenham validade ao coração
Que não os considera vãos momentos,
Os que se não renovam e que se vão

Como folhas de outono em ventania,
Leves, secas, mas douradas na feição
A fazer do próprio vento a alegria.

E se a árvore desgalhada permanece,
Com os membros retorcidos de aflição,
Faz-se inverno (talvez morra) e refloresce.

(19/10/2006)