"Como posso o meu amor então cantar
Já que tantos já o cantaram e bem melhor?
Se os mais sublimes eu saberei de cor
E cedo ou tarde deles vou me apropriar?
Assim diz por candura a minha amiga
Que. pobre, pensa ao Amor algo dever
Enquanto eu a afagava sem intriga,
Pois que ela já o cantava sem saber...
O coração se abre, não apreende.
Seu erro é inocente o mais das vezes,
E um tanto de beleza sempre rende.
Que mudo seja não conheço amor:
Seu canto ainda dura muitos meses
Depois que as cinzas perderem seu calor...
.
28/06/208
quinta-feira, 28 de junho de 2018
sexta-feira, 20 de março de 2015
Se agora dizes ainda... (de Alma Welt)
"Ainda gosto de ti, Alma"- me dizes
Enquanto me esfacelo entre os abrolhos
E me arrisco com o voo das perdizes,
Curto e baixo, talvez, para os teus olhos.
Mas ainda permaneço na berlinda
Esforçando-me pra não sair da mira
Ou, rebuscando, manter-me sempre linda
Pra dizer: "Aqui estou. Então atira! "
A quem estou enganando? digo a mim...
Tenho ainda tanto medo de perder-te
Qual Psiché a lamentar seu querubim.
Já não posso reinar mais como outrora,
Sou agora um poente, não a aurora,
Se só me dizes: "Ainda quero ver-te"...
domingo, 14 de fevereiro de 2010
A longa espera (de Alma Welt)
Estarei sentada aqui nesta varanda
Ou junto à nossa cerca de jasmim,
Esperando por quem tão longe anda,
Eu, esta que nem mesma sei de mim.
Bá! A quanto tempo espero assim!
A quanto... ouço roncos à distância
Do teu veloz e novo Aston Martin,
Que disseste supriria a tua ânsia
De mais vertigem, ventos que haveriam
Nas estradas do mundo e que viriam
Todas convergir aos nossos muros.
Vem! Tu prometeste, não me deixes,
Ou logo estarei muda como os peixes,
Vê, já não posso fazer versos mais puros...
(sem data)
Ou junto à nossa cerca de jasmim,
Esperando por quem tão longe anda,
Eu, esta que nem mesma sei de mim.
Bá! A quanto tempo espero assim!
A quanto... ouço roncos à distância
Do teu veloz e novo Aston Martin,
Que disseste supriria a tua ânsia
De mais vertigem, ventos que haveriam
Nas estradas do mundo e que viriam
Todas convergir aos nossos muros.
Vem! Tu prometeste, não me deixes,
Ou logo estarei muda como os peixes,
Vê, já não posso fazer versos mais puros...
(sem data)
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Outros tempos (de Alma Welt)
Bá! Como corríamos no prado!
Havia flores de todos os matizes,
Risos e canções por todo lado,
Os tempos eram outros e felizes...
Olhar estrelas e cantar à lua cheia,
Algo que no ouvido ainda soa,
Quando se apagava uma candeia
Para na varanda estar à toa
E ouvir os rumores circundantes
Como os cantos vagos e dispersos
Dos sapos e o latir de cães distantes.
Também, meu pai Maestro, todo ouvidos,
Instando-me a declamar uns versos
Que nos pusesse a todos comovidos...
08/11/2006
Havia flores de todos os matizes,
Risos e canções por todo lado,
Os tempos eram outros e felizes...
Olhar estrelas e cantar à lua cheia,
Algo que no ouvido ainda soa,
Quando se apagava uma candeia
Para na varanda estar à toa
E ouvir os rumores circundantes
Como os cantos vagos e dispersos
Dos sapos e o latir de cães distantes.
Também, meu pai Maestro, todo ouvidos,
Instando-me a declamar uns versos
Que nos pusesse a todos comovidos...
08/11/2006
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
A Leste do Éden (de Alma Welt)
Na vida, minhas etapas alteradas
A ordem tive, raiz dos dissabores
Profundos da alma, em trapalhadas,
A confundir ainda amor e amores.
Dei-me cedo, e guria fui mulher
Punida pelo amor tal qual foi Eva.
Desfolhada não joguei o mal-me-quer,
Que ser amada é só o que me leva.
E quanto paguei por minha virtude,
Como se crime fora ou só defeito
O que de melhor dei enquanto pude!
Depois, do Éden no Levante foi preciso
Chorar de dor o belo corpo rarefeito
De quem nos expulsou do paraíso...
03/04/2005
Nota
*Chorar de dor o belo corpo rarefeito *- Alma se refere à sua dor de ver sua mãe, que havia sido muito bela, definhar pelo câncer que afinal a matou. Ana Morgado, a "Açoriana" foi quem flagrou Alma e Rudolf ( Rôdo), crianças, brincando eroticamente sob a árvore favorita deles no pomar, e os puniu severamente, inclusive colocando Rodo num Internato, separando os irmãos por muitos anos... (Lucia Welt)
A ordem tive, raiz dos dissabores
Profundos da alma, em trapalhadas,
A confundir ainda amor e amores.
Dei-me cedo, e guria fui mulher
Punida pelo amor tal qual foi Eva.
Desfolhada não joguei o mal-me-quer,
Que ser amada é só o que me leva.
E quanto paguei por minha virtude,
Como se crime fora ou só defeito
O que de melhor dei enquanto pude!
Depois, do Éden no Levante foi preciso
Chorar de dor o belo corpo rarefeito
De quem nos expulsou do paraíso...
03/04/2005
Nota
*Chorar de dor o belo corpo rarefeito *- Alma se refere à sua dor de ver sua mãe, que havia sido muito bela, definhar pelo câncer que afinal a matou. Ana Morgado, a "Açoriana" foi quem flagrou Alma e Rudolf ( Rôdo), crianças, brincando eroticamente sob a árvore favorita deles no pomar, e os puniu severamente, inclusive colocando Rodo num Internato, separando os irmãos por muitos anos... (Lucia Welt)
O Tempo suspenso (de Alma Welt)
Não me fales, amor, de um novo ano,
Não o vejo, vês, estou sonhando?
A coxilha corrobora o meu engano,
O próprio Tempo aqui sonha pairando,
Imóvel, suspenso, entorpecido,
A confundir os tempos e as idades,
Por isso este meu Pampa é dolorido
E pleno de guerras e saudades.
Anita veio esta manhã à revelia
Do sapateiro embriagado contumaz
E amor confidenciou-me, de guria,
Por aquele italiano belo e audaz
Que hasteou farrapos, como o Bento,
E no cais espera só soprar o vento...
09/07/2004
Não o vejo, vês, estou sonhando?
A coxilha corrobora o meu engano,
O próprio Tempo aqui sonha pairando,
Imóvel, suspenso, entorpecido,
A confundir os tempos e as idades,
Por isso este meu Pampa é dolorido
E pleno de guerras e saudades.
Anita veio esta manhã à revelia
Do sapateiro embriagado contumaz
E amor confidenciou-me, de guria,
Por aquele italiano belo e audaz
Que hasteou farrapos, como o Bento,
E no cais espera só soprar o vento...
09/07/2004
domingo, 3 de janeiro de 2010
Amores perdidos (de Alma Welt)
Amores perdidos não houveram,
Que amor não se deixa para trás...
Aquilo que fruímos, que nos deram,
De nós mesmos para sempre parte faz.
Por isso não há queixas ou lamentos
Que tenham validade ao coração
Que não os considera vãos momentos,
Os que se não renovam e que se vão
Como folhas de outono em ventania,
Leves, secas, mas douradas na feição
A fazer do próprio vento a alegria.
E se a árvore desgalhada permanece,
Com os membros retorcidos de aflição,
Faz-se inverno (talvez morra) e refloresce.
(19/10/2006)
Que amor não se deixa para trás...
Aquilo que fruímos, que nos deram,
De nós mesmos para sempre parte faz.
Por isso não há queixas ou lamentos
Que tenham validade ao coração
Que não os considera vãos momentos,
Os que se não renovam e que se vão
Como folhas de outono em ventania,
Leves, secas, mas douradas na feição
A fazer do próprio vento a alegria.
E se a árvore desgalhada permanece,
Com os membros retorcidos de aflição,
Faz-se inverno (talvez morra) e refloresce.
(19/10/2006)
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
O Coro (de Alma Welt)
O canto da planície eu apreendi,
Seu coro visual ou seu entôo
Inaudível, mas que nítido senti
Observando os pássaros no vôo.
O vento em meus cabelos é a lira,
Em que pese o sabor parnasiano,
Pois deuses ainda há quem os prefira
Por mais simples, belo, ledo engano.
Envolta em natureza e sendo ela
Posso me encantar e ganhar tempo
Ou roubar do Tempo uma parcela.
E espero em meu último suspiro
(que não haja surdo contratempo)
Ouvir os sons do coro que admiro...
15/01/2007
Seu coro visual ou seu entôo
Inaudível, mas que nítido senti
Observando os pássaros no vôo.
O vento em meus cabelos é a lira,
Em que pese o sabor parnasiano,
Pois deuses ainda há quem os prefira
Por mais simples, belo, ledo engano.
Envolta em natureza e sendo ela
Posso me encantar e ganhar tempo
Ou roubar do Tempo uma parcela.
E espero em meu último suspiro
(que não haja surdo contratempo)
Ouvir os sons do coro que admiro...
15/01/2007
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Amor, amores (de Alma Welt)
Coleciono amores com carinho
E nunca em pensamento os deserdei
Pois que ao respeitar o que amei
Não me perdi no meio do caminho.
Nenhum só jamais eu reneguei
Incluindo os que me foram infiéis,
Que do balanço d’alma só guardei
Um único amor em mil papéis.
Que importam faltas e fraqueza,
Os erros de pessoa e o sofrimento
Produzido por um doce sentimento?
O amor pouco deve ao ser amado,
Se ingênuo por mistério e natureza
Existe por que assim o quis o Fado.
(sem data)
E nunca em pensamento os deserdei
Pois que ao respeitar o que amei
Não me perdi no meio do caminho.
Nenhum só jamais eu reneguei
Incluindo os que me foram infiéis,
Que do balanço d’alma só guardei
Um único amor em mil papéis.
Que importam faltas e fraqueza,
Os erros de pessoa e o sofrimento
Produzido por um doce sentimento?
O amor pouco deve ao ser amado,
Se ingênuo por mistério e natureza
Existe por que assim o quis o Fado.
(sem data)
terça-feira, 3 de novembro de 2009
A Última Primavera (de Alma Welt)

Ofélia (ou a Morte de Alma Welt)- óleo s/ tela de Guilherme de Faria
A Última Primavera (de Alma Welt)
O que me guardará a primavera
Que é com certeza a derradeira
Já que a carta revelada, tão sincera
Me diz que não está pra brincadeira?
O meu jardim florido está deserto
Com as lindas crianças já crescidas,
Que já não as tenho tão por perto,
Que revoam, batem asas estendidas...
E se o meu perfil ainda comove
Por certo é a mim mesma que o faz
Se no espelhado lago ele se move.
Mas persisto em colher flores, tão Ofélia,
A me dizer que o espelho sempre traz
Sobre a face liquefeita uma camélia...
20/10/2006
domingo, 27 de setembro de 2009
O amor guardado (de Alma Welt)
O primeiro amor, eternizado
É como se lançado no papel,
Se não com apuro cinzelado,
Que a paixão possui um bom cinzel...
Melhor se preservado na missiva,
Carta, se possível, ou o bilhete
Que acompanha o simples ramalhete
Fanado... na memória ainda viva.
O beijo, então, da despedida,
É sempre guardado numa arca
Para vir à tona bem mais tarde,
Quando a emoção que nele arde
Das cinzas dos lábios, sua marca,
Como a fênix recobra a sua vida.
(sem data)
É como se lançado no papel,
Se não com apuro cinzelado,
Que a paixão possui um bom cinzel...
Melhor se preservado na missiva,
Carta, se possível, ou o bilhete
Que acompanha o simples ramalhete
Fanado... na memória ainda viva.
O beijo, então, da despedida,
É sempre guardado numa arca
Para vir à tona bem mais tarde,
Quando a emoção que nele arde
Das cinzas dos lábios, sua marca,
Como a fênix recobra a sua vida.
(sem data)
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Os Mais líricos Sonetos de Alma Welt (coletânea)
A Vindima (de Alma Welt)
Estás em mim, irmão, sou toda tua,
E o êxtase de amar já me ilumina.
Não ousarão nublar a minha lua
Os que me vêm ao sol desta Vindima,
Irradiante pela graça deste amor
Que brilhou na minha face desde cedo,
Quando guria nova o destemor
Em quem talvez se espere tanto medo.
Não haveria para nós aquela carga
Atribuída aos pares desde Adão
E Eva, que provaram fruta amarga...
Vê, o fruto se fez doce de saída
E jamais culpa e pecado caberão
A quem de tanto amar nasceu perdida!
Amor é um turbilhão (de Alma Welt)
Amor é um turbilhão, um mar de chamas
Que queima como incêndio na floresta,
É ferida aberta sobre as camas
E dói tanto que pouco ou nada resta
Só a ânsia de mais e mais amar
E ser tomada, virada do avesso
E redondamente se enganar
Quanto ao seu fim ou seu começo;
É ficar cega de tanto admirar
E querer o outro devorar
Para senti-lo dentro devorando
O nosso coração então repleto,
Afinal o Hermafrodita aflorando,
O ser primordial, uno, completo!
Soneto da Alma nadadora,
ou A nereida dos pampas (de Alma Welt)
Meu Pampa, oceano dos amores
Que me viram infanta nua nestas plagas,
Singrando entre as ervas, entre as flores
No jardim ou nas coxilhas como vagas
Que minh'alma nadadora acompanhava
Com o olhar e o coração mergulhador,
Imersa que ao nascer já me encontrava
Nas ondas de um mar encantador...
Aqui nesta soleira estou sentada
Como atenta salva-vida numa praia
A olhar o horizonte que desmaia,
Ou sonhando qual nereida num rochedo,
Que é esta casa-grande naufragada
Num mar de fantasia e engano ledo.
28/11/2006
Os sonhos da razão (de Alma Welt)
"El sueño de la razón produces monstros." (Goya)
Levantam-se na noite os meus sonhos
E me acordam, febril e alvoroçada.
Não me embalam, não, não são risonhos
Meus sonhos de poeta apaixonada!
Paixão da vida, a ânsia dos autores,
Da louca ilusão de eternidade,
Sonhos de grandeza, dos louvores,
Dos vôos sobre os tetos da cidade!
Ah! Ser o ideal que desejei:
Ser a Alma aqui do Rio Grande,
A musa que de mim me projetei!
Eu, que necessito ser amada
E quero ser feliz além de grande,
Tudo quero, tudo, e tenho nada...
11/12/2006
Soneto dos Amores Idos (de Alma Welt)
Amores idos vêm durante a noite
Como bando de falenas no meu sonho
E esperam que em seus vôos eu me afoite
E siga-os ao seu vale tristonho
Onde vagam sonânbulos no exílio,
Perdidos qual cometa em Branca Via
Ou como aquele um, pródigo filho
Que espera ser mimado todavia.
E eu os acolho no meu seio
E a cada um consolo, ai de mim!
Que a mim mesma consolo nunca veio...
E a todos eu garanto o meu amor
Que nunca do meu peito (ah! que dor)
Apagarei, fiel que sou até o fim!
27/11/2006
Quando chega o verão na pradaria (de Alma Welt)
Quando chega o verão na pradaria
Eu desfruto ainda o mesmo encanto
Pela revoada e a alegria
Dos pássaros, insetos e seu canto.
O verde agradecido, triunfante,
As árvores no plano ou nas coxilhas,
E salpicando a relva já fragrante,
As flores, as pequenas maravilhas.
E o peão singrando a todo pano
Atrás de um novilho desgarrado
Como a gota que faltava no oceano
Da boiada imensa, mar de guampa
Que se move como a maré do prado,
Ou como branca espuma do meu Pampa.
12/12/2006
Amores como os vinhos (de Alma Welt)
Amores como vinhos envelhecem
Guardando aquele travo que perdura,
Mas ficam mais nobres quando esquecem
A dor, imperfeições e a amargura.
É preciso que lembremos dos amores
Como a safra ideal da juventude,
Fiéis aos nossos gostos e pendores
E àquela sensação de plenitude.
Amassadas sob os pés apaixonados
As uvas fomos nós e quão sangramos
Antes de sermos sonhos decantados
Nas garrafas ainda sem um nome,
Sem a cor, o buquê e o renome,
Enquanto nossos sonhos maturamos...
18/12/2006
A minha casa, perdida (de Alma Welt)
A minha casa, perdida neste prado,
Brota do solo como se fora encantada,
O limo já recobre seu telhado
E as heras a põem meio assombrada.
E se as nuvens recobrem o meu pampa
E começa o tropel da trovoada
Eu sinto como se abrisse a tampa
Da caixa da Pandora atormentada
Que sou, esta Alma dividida
Entre a paixão da Arte e da Vida
A vagar pelo jardim anoitecido
Enquanto o Minuano não me venha
Ao encontro, buscar-me, e como senha
Entoar sussurrante o seu gemido...
18/12/2006
As mulheres que colhem flores (de Alma Welt)
Quanto tenho estado a colher flores
Neste jardim amado desde a infância!
Aqui eu dediquei aos meus amores
Os melhores instantes de constância.
A mulher que colhe flores permanece
No tempo e nas retinas de alguém.
É imagem que a todos enternece
E é ícone e símbolo também.
Quando não houver quem as colher
No pé que as formou sem as tolher
As flores morrerão envelhecidas:
Foram belas, ali, por algum tempo,
Mas não produziram o momento
Do sorriso e das mãos agradecidas...
24/12/2006
Explode, ó beleza... (de Alma Welt)
Explode, ó beleza, na campina!
Quero chover, plantar e germinar...
Ser as ervas, as flores, a ravina
Por onde flui o regato para o mar!
Sou a alma, eu sei, desta porção
Do pampa que me viu desabrochar,
Ser mulher-poeta e sua canção,
E ser guria feita para amar
E que por ser novilha e amazona,
Pequena fêmea aérea, estabanada,
Tanto gaúcho sonhava ver na zona,
Mas que, prenda da vinha, a peonada
Viu crescer, fluir nua e mergulhar
Em claras águas e no sangue do lagar...
30/12/2006
Às águas do meu poço (de Alma Welt)
Ele me espera, eu sei que morrerei
Sob a face do meu lago, tão serena.
Aqui eu fui feliz como nem sei,
Aqui eu mergulhei desde pequena.
Sou a Ofélia nua do meu poço:
Aqui fui cobiçada em minha pureza
Fui ali tomada com rudeza,
E continuo pura, sem esforço.
Nada tive que cobrar da natureza,
Nada tenho a reclamar do meu destino...
Sou Alma, a poetisa, e sou a mesma
Guria branca de gênio sonhador
Cuja vida haverá de ser um hino
À beleza, à liberdade e ao amor!
01/01/2007
NIHIL, ou Velho Tema (de Alma Welt)
Quando penso que o meu melhor poema
Será aquele que nunca escreverei,
E que, entre mil, o melhor tema
Não terá sido nenhum que celebrei;
Quando percebo que tudo é aventura
E a vida não é mais que puro jogo
De dados lançados à ventura
E cercado pelo blefe e pelo logro,
Eu sei que construí em chão de areia
E recheei de hóspedes bisonhos
A mansão que eu queria sempre cheia.
E que no fim de uma vida de trabalho
Verei ruir como um castelo de baralho
Toda a arquitetura dos meus sonhos...
02/01/2007
Amores meus, mitos sagrados... (de Alma Welt)
Amores meus, mitos sagrados,
Ícones de minh’alma agradecida
Quão grata sou aos meus amados
Por se deixarem ser em minha vida!
Aquele inaugurou meu próprio ser
Debaixo da Árvore da Inocência
A que escolhi na aurora pertencer
Malgrado um olor de consciência;
Outro tão ardente, e de meu sexo,
Que colada a mim me duplicava,
E que ainda sinto o seu amplexo...
E outro e mais outro, como açoites
Rubras flechas tiradas de uma aljava
E lançadas de mim nas minhas noites...
16/01/2007
Estás em mim, irmão, sou toda tua,
E o êxtase de amar já me ilumina.
Não ousarão nublar a minha lua
Os que me vêm ao sol desta Vindima,
Irradiante pela graça deste amor
Que brilhou na minha face desde cedo,
Quando guria nova o destemor
Em quem talvez se espere tanto medo.
Não haveria para nós aquela carga
Atribuída aos pares desde Adão
E Eva, que provaram fruta amarga...
Vê, o fruto se fez doce de saída
E jamais culpa e pecado caberão
A quem de tanto amar nasceu perdida!
Amor é um turbilhão (de Alma Welt)
Amor é um turbilhão, um mar de chamas
Que queima como incêndio na floresta,
É ferida aberta sobre as camas
E dói tanto que pouco ou nada resta
Só a ânsia de mais e mais amar
E ser tomada, virada do avesso
E redondamente se enganar
Quanto ao seu fim ou seu começo;
É ficar cega de tanto admirar
E querer o outro devorar
Para senti-lo dentro devorando
O nosso coração então repleto,
Afinal o Hermafrodita aflorando,
O ser primordial, uno, completo!
Soneto da Alma nadadora,
ou A nereida dos pampas (de Alma Welt)
Meu Pampa, oceano dos amores
Que me viram infanta nua nestas plagas,
Singrando entre as ervas, entre as flores
No jardim ou nas coxilhas como vagas
Que minh'alma nadadora acompanhava
Com o olhar e o coração mergulhador,
Imersa que ao nascer já me encontrava
Nas ondas de um mar encantador...
Aqui nesta soleira estou sentada
Como atenta salva-vida numa praia
A olhar o horizonte que desmaia,
Ou sonhando qual nereida num rochedo,
Que é esta casa-grande naufragada
Num mar de fantasia e engano ledo.
28/11/2006
Os sonhos da razão (de Alma Welt)
"El sueño de la razón produces monstros." (Goya)
Levantam-se na noite os meus sonhos
E me acordam, febril e alvoroçada.
Não me embalam, não, não são risonhos
Meus sonhos de poeta apaixonada!
Paixão da vida, a ânsia dos autores,
Da louca ilusão de eternidade,
Sonhos de grandeza, dos louvores,
Dos vôos sobre os tetos da cidade!
Ah! Ser o ideal que desejei:
Ser a Alma aqui do Rio Grande,
A musa que de mim me projetei!
Eu, que necessito ser amada
E quero ser feliz além de grande,
Tudo quero, tudo, e tenho nada...
11/12/2006
Soneto dos Amores Idos (de Alma Welt)
Amores idos vêm durante a noite
Como bando de falenas no meu sonho
E esperam que em seus vôos eu me afoite
E siga-os ao seu vale tristonho
Onde vagam sonânbulos no exílio,
Perdidos qual cometa em Branca Via
Ou como aquele um, pródigo filho
Que espera ser mimado todavia.
E eu os acolho no meu seio
E a cada um consolo, ai de mim!
Que a mim mesma consolo nunca veio...
E a todos eu garanto o meu amor
Que nunca do meu peito (ah! que dor)
Apagarei, fiel que sou até o fim!
27/11/2006
Quando chega o verão na pradaria (de Alma Welt)
Quando chega o verão na pradaria
Eu desfruto ainda o mesmo encanto
Pela revoada e a alegria
Dos pássaros, insetos e seu canto.
O verde agradecido, triunfante,
As árvores no plano ou nas coxilhas,
E salpicando a relva já fragrante,
As flores, as pequenas maravilhas.
E o peão singrando a todo pano
Atrás de um novilho desgarrado
Como a gota que faltava no oceano
Da boiada imensa, mar de guampa
Que se move como a maré do prado,
Ou como branca espuma do meu Pampa.
12/12/2006
Amores como os vinhos (de Alma Welt)
Amores como vinhos envelhecem
Guardando aquele travo que perdura,
Mas ficam mais nobres quando esquecem
A dor, imperfeições e a amargura.
É preciso que lembremos dos amores
Como a safra ideal da juventude,
Fiéis aos nossos gostos e pendores
E àquela sensação de plenitude.
Amassadas sob os pés apaixonados
As uvas fomos nós e quão sangramos
Antes de sermos sonhos decantados
Nas garrafas ainda sem um nome,
Sem a cor, o buquê e o renome,
Enquanto nossos sonhos maturamos...
18/12/2006
A minha casa, perdida (de Alma Welt)
A minha casa, perdida neste prado,
Brota do solo como se fora encantada,
O limo já recobre seu telhado
E as heras a põem meio assombrada.
E se as nuvens recobrem o meu pampa
E começa o tropel da trovoada
Eu sinto como se abrisse a tampa
Da caixa da Pandora atormentada
Que sou, esta Alma dividida
Entre a paixão da Arte e da Vida
A vagar pelo jardim anoitecido
Enquanto o Minuano não me venha
Ao encontro, buscar-me, e como senha
Entoar sussurrante o seu gemido...
18/12/2006
As mulheres que colhem flores (de Alma Welt)
Quanto tenho estado a colher flores
Neste jardim amado desde a infância!
Aqui eu dediquei aos meus amores
Os melhores instantes de constância.
A mulher que colhe flores permanece
No tempo e nas retinas de alguém.
É imagem que a todos enternece
E é ícone e símbolo também.
Quando não houver quem as colher
No pé que as formou sem as tolher
As flores morrerão envelhecidas:
Foram belas, ali, por algum tempo,
Mas não produziram o momento
Do sorriso e das mãos agradecidas...
24/12/2006
Explode, ó beleza... (de Alma Welt)
Explode, ó beleza, na campina!
Quero chover, plantar e germinar...
Ser as ervas, as flores, a ravina
Por onde flui o regato para o mar!
Sou a alma, eu sei, desta porção
Do pampa que me viu desabrochar,
Ser mulher-poeta e sua canção,
E ser guria feita para amar
E que por ser novilha e amazona,
Pequena fêmea aérea, estabanada,
Tanto gaúcho sonhava ver na zona,
Mas que, prenda da vinha, a peonada
Viu crescer, fluir nua e mergulhar
Em claras águas e no sangue do lagar...
30/12/2006
Às águas do meu poço (de Alma Welt)
Ele me espera, eu sei que morrerei
Sob a face do meu lago, tão serena.
Aqui eu fui feliz como nem sei,
Aqui eu mergulhei desde pequena.
Sou a Ofélia nua do meu poço:
Aqui fui cobiçada em minha pureza
Fui ali tomada com rudeza,
E continuo pura, sem esforço.
Nada tive que cobrar da natureza,
Nada tenho a reclamar do meu destino...
Sou Alma, a poetisa, e sou a mesma
Guria branca de gênio sonhador
Cuja vida haverá de ser um hino
À beleza, à liberdade e ao amor!
01/01/2007
NIHIL, ou Velho Tema (de Alma Welt)
Quando penso que o meu melhor poema
Será aquele que nunca escreverei,
E que, entre mil, o melhor tema
Não terá sido nenhum que celebrei;
Quando percebo que tudo é aventura
E a vida não é mais que puro jogo
De dados lançados à ventura
E cercado pelo blefe e pelo logro,
Eu sei que construí em chão de areia
E recheei de hóspedes bisonhos
A mansão que eu queria sempre cheia.
E que no fim de uma vida de trabalho
Verei ruir como um castelo de baralho
Toda a arquitetura dos meus sonhos...
02/01/2007
Amores meus, mitos sagrados... (de Alma Welt)
Amores meus, mitos sagrados,
Ícones de minh’alma agradecida
Quão grata sou aos meus amados
Por se deixarem ser em minha vida!
Aquele inaugurou meu próprio ser
Debaixo da Árvore da Inocência
A que escolhi na aurora pertencer
Malgrado um olor de consciência;
Outro tão ardente, e de meu sexo,
Que colada a mim me duplicava,
E que ainda sinto o seu amplexo...
E outro e mais outro, como açoites
Rubras flechas tiradas de uma aljava
E lançadas de mim nas minhas noites...
16/01/2007
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